Dia 280 – 8 de junho – Sexta-Feira | De Aniversário a Funeral: tudo é celebrado no México

Pão concha doce e chocolate quente

Sexta-feira, dia 8 de junho, dia do aniversário de Angelina Crisóstemo Garcia. Dia também do funeral de sua tia que falecera no dia anterior. Por obra divina estávamos aí, na casa de Angelina, no pequeno povoado de San Jerónimo Tlacochahuaya, justo nesse dia.

Obra divina sim. E vocês entenderão quando terminarem de ler as linhas desses post.

Não houve festa de aniversário, no sentido literal da palavra festa. Houve mais do que isso: comunhão. Remarcamos nosso compromisso dessa sexta-feira para podermos estar todo o dia na companhia da aniversariante. Em tempos em que dividir se transformou em um simples clique virtual na palavra compartilhar, poder celebrar a vida e comungar momentos em uma data especial na simplicidade do mundo real de Angelina e Rogélio, foi uma bênção.

Acordamos cedo e acompanhamos os afazeres domésticos de quem cria galinhas, perus e porcos. Vinicius saiu para comprar pão enquanto eu ajudava com a louça. Voltou em quinze minutos com apenas R$8 a menos e duas sacolas cheias de pães fresquinhos, doces e salgados.

Na mesa não tinha café, nem chá, nem suco de laranja. Em Oaxaca se desperta com chocolate quente. Chocolate caseiro, feito de sementes de cacau e amêndoas, ambos tostados e moídos. À massa é só agregar água quente e mover com um molinillo, um utensílio artesanal de madeira que deixa a bebida mais aerada. E fica delicioso!! E nem leva leite!

funeral no México
Angelina servindo sopa de grão de bico às nove da manhã
funeral no México
Aos 64 anos, Angelina acorda cedo, dorme tarde e entre uma coisa e outra prepara deliciosos pratos tradicionais da cozinha mexicana

Com os afazeres da casa em dia, saímos nós três caminhando pelo centro do povoado em sentido à feirinha da cidade para comprar o que faltava para preparar mole negro oaxaquenho, o prato preferido de Angelina. Aproveitamos para comprar algumas bananas para fazer um bolo, ainda que simples, para comemorarmos o seu aniversário.

Igreja de San Jerónimo Tlacochahuaya ,construída no século XVI pelos Freis Dominicos
chile de água méxico
Comprando Chile de água na feira: pimenta suave que entra em várias preparações nessa região de Oaxaca

Voltamos para casa e Vinicius acompanhou o preparo do mole enquanto eu fazia o bolo de banana. Assim, o almoço que reuniu a família de Angelina teve como prato principal uma preparação secular e como sobremesa um bolo caseiro que eu costumava fazer em casa. De um lado, um prato complexo e cheio de história. Do outro, um doce simples feito em instantes. Ambos, entretanto, feitos com muito carinho.

mole de peru oaxaca
Mole Negro com Peru do pátio de Angelina

Depois do almoço (ou da comida), fomos nós quatro passear em Cholula, a cidade mais próxima de San Jerónimo. A verdade é que eles precisavam ir a uma floricultura comprar flores para levar ao funeral da tia e e nós, é claro, aproveitamos o passeio para conhecer mais da cultura local. Lá na cidade tivemos a oportunidade de ver como fazem para moer o cacau que depois se transforma naquele delicioso chocolate quente que provamos pela manhã.

Molinos são locais onde as pessoas levam grãos como milho e cacau para transformá-los em massa ou pó

Voltamos pra casa com um bonito arranjo de flores brancas, como manda a tradição no México. Quando eram quase nove da noite, nos preparamos para ir ao funeral que acontecia na casa da própria falecida, assim como se fazia antigamente (ou ainda se faz no interior) também no Brasil. Caminhamos pelas ruas silenciosas e escuras do pequeno povoado. Em cinco minutos estávamos no portão da casa onde tudo se passava. Ao atravessá-lo, fomos levados a outra dimensão.

Grandes lonas cobriam longas mesas e centenas de cadeiras onde mais de duzentas pessoas, entre família e amigos, comiam e bebiam ao som da música tocada por uma banda formada por mais de dez pessoas. Era literalmente uma festa.

Fomos entrando devagarinho, seguindo os passos de Angelina e Rogélio. O combinado era reproduzir tudo o que eles fizessem para não darmos um passo em falso. Afinal, num povoado em que todos se conhecem, mesmo em meio a tanta gente acabaríamos chamando a atenção: “quem é aquele casal estranho, de pernas longas, com Angelina e Rogelio?”

Assim, quando eles sentavam, nós sentávamos. Quando cumprimentavam alguém, também o cumprimentávamos. Quando rezavam, nos pusemos a rezar. E quando sentaram para comer, bem aí a gente já sabia o que fazer. Mas… não esperávamos pelo que vimos.

Perto das onze da noite, depois que já havíamos cumprimentado à família, distribuíram um pão para cada um de nós. Um pão que eu demoraria três dias para terminar. E também um grande copo de chocolate quente. Já sabendo que as pessoas não conseguem comer todo o pão, junto com ele entregam uma sacola para que guardem e levem o que restar para casa. Ensacamos nossos pães e aguardamos os próximos acontecimentos observando curiosamente cada detalhe.

Os velórios, ao menos em San Jerónimo, costumam ir até duas da manhã, um pouco depois que te dão de comer outra vez. Dezenas de mulheres se ajudam para preparar o alimento oferecido aos que ali estiveram para o último adeus. Assim, quase na hora de irmos embora, serviram caldo de carne e tortilhas gigantes com um copo enorme de atol, bebida quente feita de milho. Era simplesmente impossível ingerir tudo aquilo!

E eles sabem disso!

Por isso também te entregam um pequeno balde de plástico para colocar o que não lhe coube. Uma sacola de tortilhas já vem pronta, embalada, para que no dia seguinte, quando amanhecer, você possa comer o restante do caldo como manda o figurino.

funeral no México
Achando tudo muito estranho: enchendo o balde com a sopa que sobrou
funeral no México
Cara sem graça de quem foi a um velório e está levando comida pra casa: conflito cultural

E ninguém chora no funeral no México?

Sim, choram, mas encaram a morte de uma forma mais leve, natural, como parte da vida. A música, a comida e a bebida são elementos que fazem parte dessa reunião social como em qualquer outra, com num casamento ou aniversário de quinze anos.

Nesse dia incrível em que celebramos a vida de duas formas diferentes, fomos dormir às duas e meia da madrugada já do sábado cheios de ensinamentos e aprendizados.  E agora pergunto: foi ou não obra divina estarmos aqui justo nesse dia?

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