Dia 169 – 17 de Fevereiro – Sábado: Praia, superação e sustentabilidade

Chegamos no povoado de Palomino. Dois mil habitantes residentes. Vinte mil habitantes temporários na alta temporada. O terceiro destino turístico da Colômbia fica na praia, umas três horas da famosa Cartagena e um par de horas da fronteira com a Venezuela.

O que levam tanto turistas a Palomino? Certamente não é a infraestrutura, tampouco o mar agitado e de águas mais geladas do que deveriam ser para esse local do globo. Há coisas que se explicam melhor com os sentidos do que com a razão. Acho que isso se passa nessa pequena praia de povo simples e alegre que conhecemos nesse sábado de Fevereiro.

Calle 6, a rua principal de Palomino

As ruas de barro levantam poeira até onde não se pode mais enxergar. A falta de luz e água é constante. Não é possível chegar até a praia de carro. Não há glamour, um calçadão, espreguiçadeiras brancas na areia ou oferta de produtos com marcas internacionalmente conhecidas.

Há, sim, muita simplicidade e sorriso no rosto. Há diversidade cultural e multinacional. Há alegria e energia positiva. Ao menos agora, que os gringos tomaram conta de Palomino e a violência ficou pra trás.

Sossego em Palomino

Carlos Alberto Camacho, chef de cozinha e dono do restaurante Suá, nos contou que há quatro anos, quando decidiu se estabelecer nesse povoado, a violência era assustadora.

Pouco a pouco e com a vinda de pessoas de fora, seja para turistar, seja para residir – a exemplo do próprio Carlos -, o cenário foi mudando. Depois de ter vivido anos na capital Bogotá e levado uma vida estressante na cidade grande, o chef e sua esposa resolveram que era hora de mudar e fazer algo que transcendesse ao seu próprio benefício.

Com esse objetivo em mente, chegaram ao povoado com poucos recursos, mas com muita gana de vencer e ajudar as pessoas do povoado. Depois de ter vivido duras experiências em Bogotá, havia alguma resistência de Carlos para continuar a trabalhar com gastronomia. Horas de trabalho a fio em grandes restaurantes, pouca realização pessoal.

Carolina, sua esposa, não o deixou desistir da sua carreira. Sabia que ali estava sua paixão. Convenceu o marido a abrir um pequeno restaurante no povoado. Passaram, então, a contratar os meninos que saiam da escola e não tinham um futuro, digamos, planejado. Baixa renda, sem oportunidade de emprego, universidades afastadas e caras, guerrilha batendo à porta…. perspectiva nada promissora.

Com a abertura do restaurante, um dos primeiros no povoado, Carlos e Carolina ofereceram emprego a esses meninos, ensinaram uma profissão e, como dizem, “mostramos o que é ser gente “.

restaurante sustentável
Restaurante Suá durante o descanso: preparando para receber os turistas estrangeiros

 

Além das técnicas culinárias e noções de administração de um negócio, mostraram valores que quiçá haviam ouvido um dia, como sustentabilidade. Trataram de criar galinhas, fazer uma horta de onde tiram parte dos insumos para o restaurante e converter o lixo orgânico em fertilizantes que revertem para própria horta. Simples, barato e ainda ganham pontos com a população internacional sempre atenta a esses preciosos detalhes.

E o que é possível provar no “Suá”? De que comida estamos falando?

Bem, o cardápio é um tanto internacionalizado, pouco tradicional, mais voltado ao seu público alvo: 98% são turistas europeus em buscas de hamburgers e pastas. Uma pena.

Porém, aos que resolvem ser arriscar e pedir uma carne ou um peixe acabam tendo uma grata surpresa. Passamos o sábado à noite acompanhando de pertinho o preparo da grande maioria dos pratos do cardápio e vimos o quão dedicado é Carlos na cozinha, como seleciona os alimentos, como os porciona, como tempera e como coordena os pedidos que nessa noite saíam em alta velocidade das mesas. O restaurante sustentável estava lotado!

Mesmo na correria pra preparar os pedidos, a atenção de Carlos estava em cada detalhe. A cozinha aberta ao público permite ao chef ver o que acontece do lado de fora.

Dá o play !, gritou ele para a moça que estava próxima ao computador quando percebeu que a música havia parado de tocar.

E, ao som da música caribenha, ele salteava as frigideiras com os pedidos que não paravam de chegar. Ao final de uma jornada de dez horas ele havia trabalhado muito mais e tomado muito mais decisões que em uma semana de trabalhado como “simples” chef em Bogotá.

A diferença é que em Palomino o cansaço lhe rende sorrisos e satisfação.

Estou muito feliz com o que estou fazendo aqui”, respondeu ao perguntarmos como se sente em Palomino. “Aqui quero passar o resto dos meus dias”, completou mais adiante.

Nós, por outro lado, pensamos em passar somente o final de semana…mal sabíamos que voltaríamos a Palomino! Sem dúvida o local tem sua magia.

Não deixe de assistir o vídeo que fizemos quando passamos por Palomino!:

 

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